segunda-feira, 10 de maio de 2010

SOCIEDADE, EDUCAÇÃO E DESENCANTAMENTO EM MAX WEBER I

segunda-feira, 10 de maio de 2010
As sociologias de Durkheim e Marx, já vimos, partiram da idéia de que só é possível compreender as relações entre os homens se compreendermos a sociedade que os obriga, em níveis e em medidas diversas, a agir de acordo com forças estranhas a suas vontades individuais, e impositivas com relação a elas. (...) (RODRIGUES, 2007, p.51).
Para Durkheim a educação é o mecanismo pelo qual o indivíduo torna-se membro da sociedade.
Para Marx a sociedade é um mecanismo que, conforme o conteúdo de classe, pode ser utilizado para oprimir ou para emancipar o homem.

A sociologia de Max Weber (1864-1920) aponta para outra compreensão: A sociedade não é apenas uma “coisa” exterior e coercitiva que determina o comportamento dos indivíduos, mas o resultado de inúmeras interações interindividuais. A sociedade não é aquilo que pesa sobre os indivíduos, mas aquilo que se veicula entre eles.



Weber e o pensamento sociológico
A sociologia weberiana gira em torno do conceito de “ação social” e do postulado de que a sociologia é uma ciência “compreensiva”.
Para Weber, diferentemente das ciências naturais, para as quais os acontecimentos são relativamente independentes do cientista que os analisa, nas ciências sociais os acontecimentos dependem fundamentalmente da postura e da própria ação do investigador. Nesse sentido, a realidade não é uma coisa em si. Ela ganha um determinado rosto conforme o olhar que você lança sobre ela.
Weber se recusa a tratar os “fatos” sociais como se fossem “coisas”. Para ele, as coisas que eu vejo podem ser diferentes das coisas que você vê; pode ser também que as coisas que eu vejo não são coisas para você. A razão disso é que os homens vêem o mundo que os cerca a partir de seus valores.
Entende ainda o referido autor que os valores são compartilhados, mas são introjetados (subjetivados) de modos distintos, conforme o processo de interação em que o indivíduo está inserido.



Como Weber concebe a realidade?
Como o encontro entre os homens e os valores aos quais eles se vinculam e os quais articulam de modos distintos no plano subjetivo.
As ciências sociais, que Weber chama de ciências da cultura, são vistas como a possibilidade de captação da interação entre homens e valores no seio da vida cultural (captação da ação social)
Para Weber, como a realidade é infinita, apenas um fragmento de cada vez pode ser objeto do conhecimento. O “todo” (a sociedade) que supostamente pesaria sobre as partes (os indivíduos) é incompreensível se for tratado como um todo, como uma coisa. Este todo reside na interação entre as partes e não é possível conhecer todas elas ao mesmo tempo, porque são muitas e porque se renovam a cada dia.
A sociedade, em Weber, não é um bloco, mas uma teia.
Na seleção do fragmento a ser investigado estarão presentes os valores do investigador, que faz parte dessa sociedade ou de alguma outra. Trata-se de um processo subjetivo que não compromete a objetividade do conhecimento, desde que o investigador leve em conta, na interpretação das ações e relações, os valores que ele atribui ao próprio ator social (aquele que pratica a ação) e não os seus próprios valores (do investigador).



O que pode ser concluído das idéias até agora expostas?
+ O trabalho científico é inesgotável, porque o real o é fragmentário e especializado;
+ O objeto das ciências da cultura será a decifração da significação (o sentido) da ação social (as condutas humanas). A única maneira de estudar esse objeto é a compreensão.
De acordo com Rodrigues (2007), Weber era um pessimista radical, porque achava que o tipo de vida imposto às pessoas no mundo moderno fazia com que a educação deixasse de formar o homem, para simplesmente prepará-lo para desempenhar tarefas na vida.



Definição da sociologia compreensiva de Weber...
Ponto de partida: o que é ação social? A ação social ocorre quando um indivíduo leva os outros em consideração no momento de tomar uma atitude, de praticar uma ação.
Para Weber, agir em sociedade implica um certo grau de racionalidade por parte de quem age e implica no fato de que esta racionalidade de cada indivíduo sempre está referida aos outros indivíduos que os cercam. (Pensamento fundamental para entender Weber).



Entende o autor também que:
+ Ação social racional com relação a fins/ Comportamento racional com relação a fins – é aquele que se orienta por meios tidos como adequados (subjetivamente) para obter fins determinados, fins estes tidos como indiscutíveis pelo indivíduo (subjetivamente). Exemplo: Vou à escola pensando em me formar e ganhar dinheiro.
+ Ação social com relação a valores: orienta-se pelos valores familiares ou pelo modo como os incorporamos à nossa hierarquia de valores. Exemplo: Vou à escola porque minha formação familiar deu muita importância aos estudos.
+ Ação social afetiva: Tipo de comportamento no qual somos irracionais. Exemplo: Vou à escola por causa dos amigos, dos professores ou da namorada/namorado.



Qual, então, é a racionalidade perfeita para Weber?
É a adequação entre os meios de que você se vale para agir e os fins que você objetiva alcançar com esta ação.
Na ação afetiva não levamos em consideração objetivos a serem alcançados nem buscamos utilizar dos melhores meios para isso.
Esses tipos de ação não aparecem separados no dia-a-dia. (As razões para ir a uma escola se misturam). O método de Weber consiste em isolar esses tipos “puros” de comportamento. Weber sabe que na prática empírica os tipos puros não existem, mas os constrói para que sirvam de referência.

Weber sistematiza um dos mais importantes métodos de investigação das ciências sociais/ Passo a passo:
1. Construir um tipo ideal “puro” (Weber construía vários tipos de ação social, tipos de dominação política etc). O tipo é uma construção mental feita na cabeça do investigador, a partir da vários exemplos históricos. Ele é um exagero de perfeição que jamais será encontrado na prática;
2. Olhar o mundo social que o cerca, esta teia inesgotável de eventos e processos, e selecionar dele o aspecto a ser investigado (não dá para ser tudo, tem que ser uma coisa de cada vez);
3. Comparar o mundo social empírico como o tipo ideal construído. Aspecto a observar: Ideal não significa desejado, idealizado, idealizar o que seria uma sociedade perfeita. Significa que escolhemos as características mais “puras” dos tipos. (Para Weber, os tipos mais puros de conduta são os mais racionais, no sentido de adequação entre meios e fins);
4. À medida que descrevemos o quanto a realidade se aproxima ou se distancia do tipo puro que construímos, essa realidade se apresenta a nós, se revela em seu caráter mais complexo; os comportamentos vêm à luz revelando a racionalidade e a irracionalidade que os tornou possíveis.

É assim que a ação social racional com relação a fins (aquele caso hipotético em que o indivíduo realizaria um cálculo perfeitamente racional) serve exatamente para que se possa avaliar o alcance, na prática, daquilo que é irracional com relação aos fins a que se propõe aquele que pratica a ação. (...) (RODRIGUES, 2007, p.56-57).



Comportamento subjetivo em Weber não se restringe ao comportamento psíquico. Comportamento subjetivo é comportamento do sujeito da ação, e nenhuma ação é social se não se referir ao comportamento dos outros sujeitos e dos obstáculos que todos enfrentam para levar as suas ações até as últimas conseqüências. Aquilo que é mental, exclusivamente psíquico, para Weber é incompreensível do ponto de vista da sociologia.



O que seria, então, a sociologia compreensiva?
É a sociologia que se refere à análise dos comportamentos movidos pela racionalidade dos sujeitos com relação aos outros.
Para Weber:
+ Os comportamentos dos atores são interpretados como sendo dotados de intencionalidade, como sendo ações propriamente ditas.
+ O indivíduo constitui o único portador de um comportamento provido de sentido, de intencionalidade. Conceitos como Estado, capitalismo ou Igreja reduzem-se a categorias que se referem a determinados modos de o homem agir em sociedade.
+ A tarefa da sociologia é interpretar este agir de modo que ele se torne um agir compreensível, e isto significa, sem exceção, um agir de homens que se relacionam uns com os outros.

Referência
RODRIGUES, Alberto Tosi. Sociologia da Educação. 6. ed. Rio de Janeiro: lamparina, 2007.

1 comentários:

Osimara disse...

Gostei dessa reflexão, séria e focada. Muito bom, depois vou ler as postagens relacionada a essa.

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