quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Uma oficina de (auto)biografia

Quando cursava o mestrado em educação (UFC) tive a oportunidade de elaborar uma autobiografia, fruto de trabalho acadêmico solicitado por uma das disciplinas no referido curso. Gostei tanto dessa experiência que a levei para o curso de graduação de pedagogos, em algumas instituições nas quais atuei. Foram muitas turmas que aceitaram a proposta de elaboração de biografias ou autobiografias com foco na história de educação,

Compartilho nessa postagem a sequência didática que utilizava, seguida de orientações metodológicas voltadas para a mediação de produção de (auto)biografias.

Logo nos primeiros encontros, visando deixar claro o que seria a (auto)biografia, levava citações de alguns autores, tais como:

“(...) o método (auto)biográfico tem se mostrado como opção e alternativa às disciplinas das ciências humanas, para fazer mediação entre a história individual e a história social, visto que, segundo Ferraroti (1988, p. 24) “o seu caráter essencial, é a sua historicidade profunda, a sua unicidade”. Ao afirmar que toda práxis humana é reveladora das apropriações que os indivíduos fazem das relações e das próprias estruturas sociais, o referido autor defende que “podemos conhecer o social a partir da especificidade irredutível de uma práxis individual (...).”  (MOURA, 2004, p. 126).

“As (auto)biografias são constituídas por narrativas em que se desvelam trajetórias de vida. Esse processo de construção tem na narrativa a qualidade de possibilitar a auto compreensão, o conhecimento de si, àquele que narra sua trajetória.” (ABRAHAO, 2004, p. 203).


“Pesquisadores, em geral, e historiadores, em especial, têm manifestado interesse por fontes autobiográficas. Antonio Vinão (2000) observou sua importância para a história da educação, pois permitem examinar a cultura escolar, a percepção que os professores tinham de si mesmos, o universo da alfabetização e da leitura, a profissionalização docente, a gênese e evolução das disciplinas e o currículo escolar, por exemplo.”  (MIGNOT, 2003, p. 135 e 136).

Após esse diálogo com os estudantes por meio da análise das referidas citações, sugeríamos os seguintes passos para a elaboração da (auto)biografia:
A. Momento individual
1.  Recorde algumas histórias interessantes de sua vida relacionados à educação;
2. Dê título às histórias que você lembrou;
3. A partir desse conjunto de histórias, crie um título para a (auto)biografia;
4. Escolha a história que você considera mais interessante e compartilhe em grupo.

B. Momento coletivo
1. Compartilhem suas histórias em pequenos grupos;
2. Depois de narradas todas as histórias, escolham a história que mais chamou todos e elaborem juntos uma apresentação criativa para a turma do primeiro semestre.

Cada grupo preparava sua dramatização e apresentava para a sala de aula. Essa iniciativa tinha como objetivo oferecer noções a respeito da produção autobiográfica, inspirando os estudantes para a escrita de seus textos.


Para facilitar a produção da (auto)biografia, recomendávamos a cada estudante a elaboração de um pequeno projeto (auto)biográfico. Nesse simples projeto o estudante deveria:
1.  Informar o título da (auto)biografia;
2. Relacionar os títulos das histórias que recordou e intitulou;
3.  Descrever o método a ser utilizado para escrever a (auto)biografia, tais como: escreverá apenas a partir de suas recordações? Contará com a colaboração de amigos e familiares por meio de entrevistas e depoimentos? Utilizará fotografias, documentos diversos, músicas e poesias que marcaram suas histórias da educação?
4. Montar um pequeno cronograma relacionando as ações que precisam ser realizadas para a elaboração da autobiografia e estabelecer prazo para que cada uma seja desenvolvida;
5. Indicar referências bibliográficas, se utilizadas;
6. Reunir todas essas informações num projeto e entregá-las ao educador.

Também dávamos algumas sugestões para a elaboração da (auto)biografia, tais como:
01. Procure, ao escrever a (auto)biografia, não se preocupar com uma narrativa cronológica. Exemplo: construir um relato que vai do nascimento aos dias atuais.

02. Apresente aquelas histórias que você pode narrar, sem se sentir exposto. Você não precisa dizer tudo a respeito de sua história. Aquilo que não achar conveniente narrar, omita.

03. Peça para outras pessoas participarem da escrita (auto)biográfica, dando depoimentos a respeito dessas histórias, caso elas tenham participado das mesmas. Estas pessoas também podem colaborar com fotografias e outros documentos históricos.

04. Procure apresentar ao educador responsável pela disciplina "História da Educação" ou amigos algumas das histórias já escritas para que eles possam dar sugestões.

05. Enriqueça sua autobiografia com fotografias e outros documentos que possam ilustrar suas histórias.

06. Lembre-se que o foco da (Autobiografia) é a história da educação e que educação não se restringe ao que você vivenciou na escola. Considere, portanto, a educação formal e a educação informal.

07. Não deixe para escrever a (Auto)biografia na véspera da entrega deste trabalho. Comece a escrever agora, à medida que as recordações a respeito vierem à sua mente.

Recebíamos as (auto)biografias nos últimos encontros da disciplina, momentos em que os estudantes apresentavam suas produções e a partir delas, estudávamos a história da educação nas últimas décadas, Chamávamos esse bloco de estudo de “História da educação, nossa história da educação”, mostrando que nossas histórias individuais integram e representam a história da educação contemporânea (a partir de nossas próprias histórias contextualizadas, estudar a história da educação).


Referências
ABRAHÃO, Maria Helena Menna Barreto. Pesquisa (auto)biográfica: tempo, memória e narrativas. In: ABRAHÃO, Maria Helena Menna Barreto. A aventura (auto)biográfica:teoria e prática. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2004.

MIGNOT, Ana Chrystina Venâncio. Em busca do tempo vivido: autobiografias de professoras. In: MIGNOT, Ana Chrystina Venâncio; CUNHA, Maria Tereza Santos. Práticas de memória docente. São Paulo: Cortez, 2003.

MOURA, Eliana Perez Gonçalves de. Da pesquisa (auto)biográfica à cartografia: desafios epistemológicos no campo da psicologia. In: ABRAHÃO, Maria Helena Menna Barreto. (Org.). A aventura (auto)biográfica: teoria e prática. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2004.

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