quinta-feira, 31 de março de 2011

Martins de Aguiar, um filólogo e educador cearense

Em 2004, quando pesquisava sobre a história do Liceu do Ceará entre os anos 1937 e 1945, entrevistei alguns ex-estudantes, tais como: Caio Lóssio Botelho, Alberto Santiago Galeno, Oswaldo Evandro e Vinícius Barros Leal.

Ambos recordaram a qualidade de ensino presente no Liceu do Ceará nos anos mencionados e sobre o quadro de educadores composto por homens ilustres, prestigiados socialmente graças à competência nas áreas do conhecimento em que atuavam.

Os professores do Liceu eram selecionados por rigoroso processo seletivo, tinham bons salários e eram reconhecidos pelo zelo com relação a disciplina dos estudantes.

Martins de Aguiar foi citado em todas as entrevistas com um dos melhores educadores do Liceu do Ceará nas primeiras décadas do século XX, dentre outros mencionados. 
Oswaldo Evandro Carneiro Martins lembrou que Martins de Aguiar, era “uma celebridade que pontificava no conhecimento da língua vernácula no Brasil todo”.

Para Caio Lóssio Botelho, o referido professor era “um grande filólogo, talvez um dos maiores filólogos do Brasil, sem exagero nenhum!” Lembra também Botelho que Martins de Aguiar foi seu professor de Português e que naquela época o livro texto que utilizava durante as aulas, de sua autoria, era adotado pela Universidade de Coimbra.

Tanto Botelho quanto Alberto Santiago Galeno afirmaram que ele era um professor austero e respeitável. Aliás, estas qualidades pareciam comuns à quase totalidade dos professores liceanos.

Recordando que Martins de Aguiar dava aulas particulares em sua casa, preparando estudantes vindos do interior para os exames de admissão, Galeno relatou a seguinte história:

"Ele dava aulas particulares, morou quase vizinho lá em casa, aqui na rua 24 de março. E os alunos do interior que queriam estudar, iam estudar com ele. Pagavam, coisa paga! Tinha um rapaz que foi lá do Jaguaribe, Bateu na porta e ele estava ensinando às moças. Entra, entra, entra! E o rapaz acanhado. Entra seu fi d’uma égua. O rapaz entrou lá e tudo. Senta aí seu fi d’uma égua. O rapaz ficou acanhado. Só assistiu a primeira aula. Não assistiu outra." (GALENO, 2004).

Por meio de Monsenhor André Camurça soubemos que Martins de Aguiar também esteve à frente do Liceu do Ceará, no cargo de diretor. O período de sua gestão coincidiu com o processo de transferência de sede: do centro da cidade, em frente à praça Getúlio Vargas, para o Jacarecanga, na praça Gustavo Barroso, ano de 1935. Assim se expressou Monsenhor Camurça a esse respeito:

"(...) e lá, com a mudança, houve nova direção e mais exigência na entrada, no exame de admissão para receber alunos. A disciplina melhorou bastante, mas sobretudo depois que Martins de Aguiar foi diretor. Foi ele quem acochou mais a disciplina. Ele era muito rigoroso com os bedéis, professores e alunos". (CAMURÇA, 2004).

Martins de Aguiar, pela relevante contribuição oferecida à educação cearense, merece ser estudado. Quem sabe possamos realizar isso ou alguém se interesse por este projeto.

Para conhecermos uma pouco mais sobre o autor, divulgo no Ateliê de educadores alguns textos raros, produzidos e publicados por ele e que versam sobre expressões populares que muitas vezes pronunciamos, mas que desconhecemos a origem. São eles: história de trancoso, amigo urso e bombom.

Conto com os comentários de vocês, ok?!


HISTÓRIA DE TRANCOSO

Não é peculiar aos cearenses a expressão história-de-trancoso. Nem sequer é brasileirismo. É puro português peninsular, como demonstra a sua origem, embora não venha nos dicionários.

Um escritor quinhentista, chamado Gonçalo Fernandes TRANCOSO, escreveu uma coleção de contos de aventuras, a que deu o título de contos e HISTÓRIAS de Proveito e Exemplo e que se tornaram populares. Daí, o atribuir-lhe o povo todo conto de aventura, o que começou a chamar história de trancoso.

A expressão é, pois, legitimamente portuguesa e, se os portugueses a esqueceram é um dos arcaísmos lusitanos que entre nós estão em pleno vigor. Velam os leitores que escrevi história. Estória seria desmarcada tolice.


AMIGO URSO

Um amigo que de qualquer modo nos prejudica é, para nós, um amigo urso. É uma lembrança da fábula. Vem a história nesse delicioso e sábio La Fontaine.

Um velho que gostava de jardins encontrou um urso na volta dum caminho e, disfarçando o medo, convidou-o a comer frutas e leite em sua casa. O urso aceitou o convite, e os dois se fazem bons amigos e passam a viver juntos. Ia o urso à caça, provendo a casa de mantimentos frescos; mas seu principal ofício era o de “espantador de moscas”, isto é: espantava quanta mosca importuna posasse no rosto do amigo adormecido.

Um dia, dormia o velho profundamente no jardim, e certa mosca, vindo empoleirar-se na ponta do nariz, pôs em desespero o dedicado urso, que mal a rechaçava, tinha imediatamente o despeito de vê-la voltar. Por fim, o espantador de moscas agarra com força e, esmagando o inseto, esmaga juntamente a cabeça de seu amigo amador de jardins.

O amigo urso é, pois, primeiramente, o amigo ignorante, aquele que nos prejudica por simples inexperiência e, depois, o que nos prejudica por falso, de caso pensado.

Formando os dois substantivos simples uma espécie de substantivo composto, pode escrever-se amigo-urso, como traço-de-união, o que, entretanto, não é preciso, ante a facilidade de um substantivo, funcionar como adjetivo.


BOMBOM

Bombom é uma linda e expressiva palavra que tem exasperado os puristas.

Quando se dá a uma criança uma guloseima, ela, ao comer, exclama a cada instante:

- Bom! Bom!

Daí o bombom, que se formou de fato na França, não poderia ter nascido em nossa língua sem que lá existisse.

É uma delicada palavra, infantil, universal para as línguas que possuem a forma adjetival bom ou boa.


Referência

AGUIAR, Martins de. Notas e estudos de português. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1971.

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