sexta-feira, 23 de julho de 2010

Educação a distância: por que te queremos?

A democratização da educação básica no Brasil integrou pautas de discussões entre intelectuais, organizações e movimentos sociais no país ainda no século XIX, influenciadas especialmente pelo movimento iluminista proveniente da Europa. Gradativamente, a oferta de vagas foi se ampliando, atingindo números significativos na segunda metade do século XX. No entanto, esse crescimento quantitativo não ocorreu de maneira qualitativa e, desde então, a oferta de educação de qualidade em escolas públicas e particulares entre nós tem sido um desafio.

Sabemos que apesar dessa expansão ainda há muitos cidadãos que não estão na escola, seja por dificuldade de acesso ou de permanência. Hoje, o cumprimento do direito à educação junto à população brasileira precisa efetivar-se na educação básica, como também no ensino superior. A demanda por formação de novos profissionais em âmbito superior no final do século XX, por exemplo, forjou a criação “a perder de vista” de instituições particulares ofertando ensino superior e de algumas públicas ou extensão de determinadas já existentes.

Nesse contexto, a Educação a distância on-line emergiu como uma possível solução para problemas educacionais no Brasil, sendo recomendada, como afirma Magnavita (2010, p. 58), como forma de atendimento a um grande número de estudantes por um custo muito mais baixo do que o ensino presencial.

Em defesa dessa modalidade de ensino, de acordo com Valente (2010, p. 50), há argumentos tais como a capacidade que a Educação a distância (Ead) tem de resolver, pelo menos teoricamente, problemas relacionados a questões temporais e espaciais. Nesse sentido, a Ead pode favorecer a estudantes e educadores a possibilidade de escolherem horários de estudo de acordo com sua disponibilidade (tempo) e de acesso à formação (inicial ou continuada) sem a necessidade de locomoção (espaço). No entanto, o referido autor, recorda que há contradições que precisam ser levadas em conta, afirmando que

(...) A maioria das experiências de que se tem notícia encontra-se praticamente presa aos paradigmas instrucionais, com enfoque unidimensional, com professores (tutores) distribuindo de forma massiva informações a grandes grupos de pessoas (...). (VALENTE, 2010, p.50).

Esta reflexão de Valente (2010) aponta para a questão do comprometimento da qualidade de ensino no Brasil, desta vez replicada em algumas experiências com Ead, na medida em que acontece a transposição para esta modalidade de ensino de concepções e práticas desenvolvidas no ensino presencial, tais como: a conservação da instrução como possibilidade metodológica para o processo de ensino-aprendizagem e a atuação do educador enquanto mero transmissor de conhecimentos de maneira massiva e descontextualizada.

Compreende Magnavita (2010, p.58), que é um desafio contemporâneo “pensar a Ead como um processo que pode ocorrer em tempos e espaços distintos, mas vinculados a contextos e situações específicas”. Nesse sentido, recorda a autora que

(...) programas e projetos vem sendo criados e recriados com soluções fragmentadas, dissociadas da realidade, sem considerar o público para o qual se destinou, suas necessidades, suas expectativas, suas potencialidades, bem como a produção de programas de forma dissociada das reais condições de aprendizagem. (MAGNAVITA, 2010, p.58).

Entendemos que a colaboração de Magnavita (2010) avalia o que se tem feito na Ead brasileira e ao mesmo aponta para o que é preciso ser contemplado para que seja garantida a qualidade nesta modalidade de ensino. Ao levarmos em consideração os itens relacionados pela referida autora, podemos concluir, portanto, que não teremos apenas único modelo de Ead. Nesse sentido, recorda Vianey (2008, p. 02) que no Brasil, entre 1994 e 2008, consolidaram-se cinco vertentes metodológicas principais em Ead em instituições de ensino superior públicas ou privadas: tele-educação via satélite, pólos de apoio presencial (semipresencial), universidade virtual, vídeo-educação e unidade central¹.

Vianey (2008) desenvolve uma crítica à proposta da Secretaria de Educação a Distância (SEED), apresentada a partir do ano de 2007, de padronizar a atuação das instituições de ensino superior vinculadas ao MEC numa organização metodológica semipresencial da Ead, modelo baseado no projeto implementado no Estado do Rio de Janeiro pelo consórcio CEDER. Nessa perspectiva, de acordo com o autor, o SEED apresentou

(...) o modelo preferencial de organização institucional para a oferta de EAD no ensino superior com uma proposta que considerava obrigatória a instalação de unidades físicas compostas por: salas de aula, salas de recepção, salas de professores, salas de estudo biblioteca, salas de informática e laboratórios específicos. Espaços necessários à realização de atividades regulares presenciais por alunos de cursos a distância, bem como da assistência a estes de tutores presenciais e demais equipes de suporte e funcionamento dos serviços vinculados aos espaços citados. (VIANNEY, 2008, p. 04).

Vianney questiona a imposição de um modelo preferencial por parte da SEED enquanto via para garantia de qualidade na educação a distância, lembrando que contraditoriamente esta proposta foi lançada em setembro de 2007 quando

(...) pela primeira vez, o grau de qualidade alcançado pela EAD no país pôde ser verificado por diversos indicadores oficiais, com a publicação pelo Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP) de um estudo comparado entre o desempenho de alunos de cursos de graduação a distância e alunos de cursos presenciais. (VIANNEY, 2008, p. 05).

A respeito dessa imposição o autor mencionado considera que

(...) a partir da observação do cenário internacional e dos indicadores coletados no Brasil, é possível afirmar que não foram encontradas evidências de qualquer ordem que pudessem dar sustentação à proposta de indução de um modelo único de educação a distância para o País. Tal proposição é tão-somente inibidora do crescimento da modalidade da EAD na geração dos comprovados benefícios em inclusão social e disseminação de competências universitárias com uma aprendizagem de qualidade. (VIANNEY, 2008, p.10).

Como vimos, Vianey defende a diversidade de modelos, possibilitando o atendimento às mais variadas situações e sujeitos e garantindo uma aprendizagem de qualidade.

Entendemos que esta aprendizagem de qualidade na Ead será possível, de acordo com Valente (2010, p. 52-53), com o alcance de um verdadeiro processo de comunicação, possibilitado “(...) por uma efetiva mediação pedagógica que garante a superação da unidirecionalidade, a modificação da emissão/recepção, gerando uma relação dialógica e possibilitando a co-criação do conhecimento”.

Valente (2010) postula um novo ambiente educacional cuja base é a construção mediada pela Pedagogia ativa, criativa e aberta à investigação e ao diálogo, pensando a Ead a partir de um visão de democratização do conhecimento, isto é, numa

(...) educação centrada no “sujeito coletivo” que reconhece a importância do outro, a existência de processos coletivos de construção do saber e a relevância de criar ambientes de aprendizagem que favoreçam o desenvolvimento do conhecimento interdisciplinar, da intuição e da criatividade. (VALENTE, 2010, p.52).

De acordo com a autora citada, para o desenvolvimento de cursos à distância é indispensável ir além da análise dos suportes tecnológicos. Nesse sentido é necessário, “(...) ter em mente os sujeitos que serão formados por esta modalidade de ensino, independente da tecnologia que esteja mediando o processo (...)” e saber ao certo a intencionalidade pedagógica.

Consideramos pertinente o que afirma Valente, ao recordarmos de nossa experiência com estudantes iniciantes em Ead, de suas representações e expectativas em relação a determinado curso e à modalidade de ensino, das dificuldades que enfrentam para acessar o ambiente de estudo e utilizar as ferramentas disponíveis, dentre outros. Este estudante real precisa ser levado em conta, e tudo que ele traz consigo. Por outro lado, é imprescindível termos bem claro onde queremos chegar ao promover cursos de formação inicial ou continuada por meio da Ead. Nessa perspectiva, Levy expõe alguns questionamentos que podem nortear o planejamento educacional, tendo em vista a promoção do que ele chama de empreendedorismo no espaço do conhecimento. São eles:

Preparamos as crianças hoje em dia? Ensinamos a aprender sempre? Ensinamos a transmitir o que já sabem? As estruturas clássicas do ensino melhor preparam para o empreendedorismo no espaço do conhecimento? (LEVY, s/d).

Respostas para as indagações de Lévy, para concluir nosso diálogo com os autores mencionados neste artigo, nos remetem à pergunta que elegemos como título do mesmo: Educação a distância: por que te queremos? Que a Ead, aliada à educação presencial², seja instrumento de inclusão, favorecendo o desenvolvimento da autonomia de estudantes e educadores, por estarem estes engajados uma aprendizagem colaborativa.

Notas
1. Vianey (2008) disponibiliza as seguintes definições para as modalidades Ead mencionadas: tele-educação via satélite (geração e transmissão de tele-aulas com recepção em franquias ou tele-salas. Suporte de tutoria presencial e on-line aos alunos, com entrega de material didático impresso ou em meio digital (CD) ou on-line, via internet); pólos de apoio presencial/semipresencial (atendimento aos alunos em locais com infraestrutura de apoio para aulas e tutoria presencial e serviços de suporte como biblioteca e laboratório de informática. Uso de materiais impressos de apoio ou de conteúdos em mídia digital); universidade virtual (uso intensivo de tecnologias de comunicação digital para o relacionamento dos tutores com os alunos e destes entre si com. Bibliotecas digitais e envio aos alunos de material didático impresso ou digitalizado. Os tutores atendem remotamente aos alunos a partir da unidade central da instituição. Os locais de apoio aos alunos são utilizados apenas para realização de provas); vídeo-educação (atendimento aos alunos em vídeo-salas com equipamento para reprodução de aulas pré- gravadas, material didático impresso como apoio às aulas em vídeo. Tutoria presencial e on-line); unidade central (sistema onde a unidade central da instituição recebe regularmente a visita dos alunos para atividades presenciais de práticas de laboratório. A tutoria é feita de maneira remota durante o período de oferta das disciplinas de base conceitual).

2. Para Levy (s/d), a mixagem cada vez maior entre Ead e Educação clássica é favorável à evolução da escola em direção a uma adaptação à nova relação que está sendo instaurada com o saber.

Referências
LÉVY, Pierre. Educação à distância. Disponível em . Acesso em: 21 jul. 2010.

MAGNAVITA, Cláudia. Educação a Distância: desafios pedagógicos.

VALENTE, Vânia Rita. Educação a Distância: repensando o fazer pedagógico.

VIANNEY, João Vianney. A ameaça de um modelo único para a EaD no Brasil. Revista Digital da CVA-RICESU. Comunidade Virtual de Aprendizagem da rede das Instituições Católicas do Ensino Superior - V.05 – Nº17 Julho 2008. Disponível em: http://www.ricesu.com.br/colabora/n17/index1.htm Acesso em: 21 Jul. 2010.

3 comentários:

Anônimo disse...

Muito bom o Artigo, estou hoje com 43 anos e me lembro que a 30 anos atras fiz um curso pelo correio no instituto universal brasileiro, o curso era pomposo "Desenho Artistico e Publicitario", penso que foi um tempo de EAD romantico.
sds,
Ricardo Antunes

Anônimo disse...

Muito interessante o artigo, nos dá uma visão do que é a EAD, agora visto de outro patamar, pois, como disse o comentário acima, já existia o curso à distância, mas, não com essa dimensão. Maravilhosa inclusão social, todos pela educação!!!

abç

Sandra Brito

Anônimo disse...

Oie Professor,
Estou lendo este texto pela segunda vez, e é incrivel como fica mais claro agora que a primeira vez, nem digo interpretação mas conexão ...é sinal que estou evoluindo rsrsrs..
Texto muito bom...
abraços,
Ana Paula