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quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

ORAÇÃO DA MESTRA

 Já que nestes dias tenho publicado ducumentos que encontrei por meio de pesquisa historiográfica, apresento agora aos leitores do Ateliê de Educadores um documento considerei muito interessante e que oferece indicações interessantes sobre representações do ser educadora  nas primeiras décadas do século XX e concepção de educação.
Só para ilustrar, vejamos algumas ideias presentes na oração: nocões sobre o caráter divino do magistério (ideia de que o conhecimento vem de Deus e de que quem ensina tem esta tarefa delegado por Ele, devendo agir com pureza); ideia sobre postura das educadoras (deveria ser dócil, exercendo aquilo que é próprio da maternidade. Resignada diante de qualquer situação adversa, pois a insatisfação conduz é uma ameaça à “ordem”, travando o “progresso”; compreensão das crianças como sujeitos moldáveis pelos valores nos quais acreditava =  educação enquanto reprodução linear, transmissão fiel de conhecimentos.
Outros aspectos podem ser apontados por vocês, leitores. Deixem suas colaborações nos comentários, logo abaixo desta postagem.A autora da Oração é Gabriela Mistral e o mesmo foi publicado em 1937, no Jornal O Povo, de Fortaleza - Ceará.

SENHOR,
Tu que ensinaste, perdoa que eu ensino: que use o nome de mestra, que carregaste sobre a Terra.

Dá-me o amor único da minha escola. Que nem a destruição da beleza seja capaz de roubar-lhe a minha ternura de todas as horas.

Mestre, faze duradouro o fervor e passageiro o desengano. Arranca de Mim este impuro desejo de justiça que ainda me turva a mesquinha insinuação do protesto que sobre sobre mim, quando me ferem. Não me doa incompreensão nem me entristeça o esquecimento das alunas que ensinei.

Dá que seja mais mãe do que as mães, para poder amar e defender como elas o que não é carne de minha carne.

Dá que eu consiga fazer de uma de minhas pequeninas meu verso perfeito e deixe gravado minha mais penetrante melodia, para quando meus lábios não cantem mais

Mostra-me a possibilidade do teu Evangelho no meu tempo, para que não renuncie à batalha de cada dia e de cada hora por ele.

Põe em minha escola democracia, o resplendor que aureolava a tua ronda de meninos descalços.

Faze-me forte mesmo em meu desamparo de mulher pobre. Faze-me indiferente a toda aquele que não seja puro a toda pressão que não seja a de tua vontade ardente sobre a minha vida.

Amigo e companheiro, ampara-me!
Muitas vezes não terei sinão a ti ao meu lado. Quando a minha doutrina for mais pura a mais abrazadora a minha verdade, eu me afastares do mundo, porém tu me apartarás contra o teu coração que foi cheio de Solidão e desamparo. Eu não procurarei sinão no teu olhar a doçura da aprovação.

Dá-me simplicidade e dá-me profundidade: livra-me de ser complicada ou banal em minha lição cotidiana.

Dá que eu levante os olhos do meu peito ferido, ao entrar cada manhã em minha escola. Que não leve à minha mesa de trabalho minhas pequenas preocupações materiais, mesquinhas dores de cada instante.

Aligeira-me a mão no castigo e suavisa-a mais ainda na carícia. Repreenda com pesar, para saber que corrigi amando!

Faze-me de revista de espírito a minha escola de ladrilhas.

Envolve a labareda de meu entusiasmo seu átrio pobre, sua sala desnudada.

Meu coração lhe seja mais coluna e minha boa vontade mais ouro das escolas ricas.

E, por fim, recorda-me que ensinar e amar intensamente sobre a Terra é chegar ao último dia com o lancaço de longino no costado ardente de amor.

Referência
MISTRAL, Gabriela. Jornal O Povo. 07 de janeiro de 1937.

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