quarta-feira, 1 de abril de 2015

Arte com sucata

Olá leitores do Ateliê de educadores, disponibilizamos hoje uma espécie de resumo sobre o trabalho com sucata na educação básica. Que esse material seja útil a tod@s @s interessad@s!

O que é?
Arte que aproveita o “lixo” de uma sociedade de consumo. A sucata torna-se material de pesquisa, colagem e construção nas escolas para as crianças.

A sucata, pode ter aspecto de “lixo”, de amontoado de cacarecos misturados, confusos, difíceis de serem distinguidos, parecendo lixo real, Por outro lado, pode dar origem a objetos construtivos, expressivos.

O trabalho com sucata permite ao educador verificar o estágio cognitivo em que se encontra a criança.


O que fazer com a sucata?
Não basta lançar mão de uma apostila, de uma fórmula, fazendo com que as crianças transformem um mesmo material num mesmo objeto, como transformar um copo de iogurte em flor, coelho. Neste sentido, a atividade fica limitada porque há uma preocupação com a representação do real do objeto – o coelho tem que parecer com coelho – ou há interferência na própria construção, preestabelecendo todas as etapas, resultando em objetos estereotipados, iguais, onde dificilmente vemos a intenção da criança.

O que fazer com a sucata surge da pesquisa dos próprios materiais
O emprego da sucata envolve ampla pesquisa de materiais. Como? Separando materiais segundo critérios estabelecidos: texturas, consistências, cheiros, cores, tamanhos. Esses materiais reunidos exigem separação, classificação e ordenação.

A criança, com a intenção do educador, encontrará condições favoráveis para respeitar e valorizar os objetos construídos com sucata, não discriminando “nobres” e “não-nobres” à medida que separar os materiais e perceber que estes são aceitos como qualquer outro.

E depois de separar?

Providenciar materiais acessórios: ferramentas, colas, jornais velhos, barbantes, pregos e martelo. Alguns materiais deverão ser adaptados à faixa etária da criança, cabendo esta tarefa ao professor.

Sugerir às crianças a possibilidade de adaptar e readaptar determinado material aos projetos: se um tipo não for encontrado, procurar alguma maneira de adaptá-lo ou, então, escolher outro.

No trabalho com sucata nada é previsto rigidamente, nada se oferece pronto. É preciso descobrir formas, maneiras variadas de empregar o mesmo material e construir.
Tipos de materiais
Sucata natural (reália): sementes, pedras, conchas, folhas, penas, galhos, pedaços de madeira, areia, terra, dentre outros.

Sucata industrializada: embalagens, copos plásticos, chapas metálicas, tecidos, papéis, papelões, isopor, caixas de ovos, dentre outros.

O que levar em conta no trabalho com sucata?


+ Objetivos a serem atingidos;
+ Adequação ao estágio de desenvolvimento da criança;
+ Escolha do material que proporcione o maior número possível de exploração pela criança.

É fundamental que a própria criança escolha o material que deseja manusear e que ela própria possa criar o seu jogo ou brincadeira.

A criança só aprende aquilo que vive concretamente – é importante que ela faça suas próprias descobertas por meio da manipulação, observação e exploração dos jogos que lhe permitirão assimilar conceitos, integrá-los à sua personalidade e organizar o seu pensamento.

Papéis do educador na atividade com sucata

Observador – conhecer melhor os educandos e avaliar a sua evolução;

Questionador – fazer questionamentos aos educandos durante uma atividade que os ajudarão a encontrar respostas para desenvolver criatividade e pensamento lógico. Além disso, intervir evitando respostas e respeitando o estágio de desenvolvimento da criança.

Participante – participa das atividades ou jogos, dá assistência aos educandos em suas dificuldades e trabalha junto aos educandos sem realizar o trabalho por eles.

No brinquedo com sucata inexiste acerto ou erro. Nela a criança sempre acerta, pois é ela quem cria. É ela quem determina o que está fazendo, representando ou vendo.

Explorando o material

As crianças pequenas iniciam o conhecimento sobre o mundo por meio dos cinco sentidos (visão, tato, olfato, audição e gustação), do movimento, da curiosidade em relação ao que está à sua volta, da repetição, da imitação, da brincadeira e do jogo simbólico.

É na interação da criança com os objetos de conhecimento (desenho, pintura, modelagem, dentre outros) que o processo expressivo se constitui.

A criança explora o material, observa-o em todos os sentidos: experimenta, aperta, puxa, coloca em pé, conta história, cria, descobre, expressa-se.

O objeto para a criança pode transformar-se em várias coisas. Jamais perguntar: o que é isso? É um bichinho? Mas pedir que a criança fale o que fez e ela não se frustrará.

Processo de criação

O momento da exploração: toca os objetos com as mãos (tato); olha-o em todos os ângulos (visão); cheira-o (olfato); bate para ouvir som ou vibração (audição); morde (paladar). Utiliza todos os sentidos.
O momento da crítica: analisa as características do objeto: se é bonito, se está bom, se gostaria de brincar com ele. Depois via dizer o que precisa ser feito com o material (lixar, lavar, raspar). A criança começa a classificar os objetos, a organizá-los quanto a sua utilidade; escolhe os que sugerem sentimentos. Este é um momento importante para o desenvolvimento das estruturas cognitivas.

O momento da criação: a criança pensa como modificar o objeto, transformando-o de acordo com sua fantasia. Acrescenta detalhes, tira alguns, parte o objeto em dois, três ou mais pedaços. Quanto menos interferência do adulto, mais a criança se envolverá e se agradará da atividade.

Deve-se valorizar o trabalho de cada um, oportunizar a fala sobre o trabalho e incentivar a coleta dos materiais.

Trabalho de sucata com jornal: fantasia, pulseiras, colares, recortes de tiras, colagem, árvores.

Etapas para a construção do brinquedo com sucata
+ Levantamento dos mais variados materiais de sucata pelos educandos e pelo educador, com a colaboração dos pais;
+ Percepção dos diversos materiais extraídos da natureza, dos objetos em desuso, do lixo;
+ Separação e classificação desses materiais segundo critérios de textura, superfície, cor, tamanho, cheiro, dentre outros;
+ Escolha e adaptação dos instrumentos necessários para a manipulação das sucatas: ferramentas, tintas, colas, arames, dentre outros;
+ Preparação e adaptação da sala de aula para que a criança se sinta à vontade no espaço de construção;
+ Ordenação e arrumação de todo o material e da sala ao final da aula, com a participação ativa dos educandos, estimulando-os a demonstrar respeito pelo material.

Por que a denominação brinquedo de sucata?

Trata-se de um objeto construído artesanalmente, utilizando diversos materiais. É resultado de um trabalho de transformação, de reaproveitamento.

A própria colagem surge da junção de materiais diversificados e, uma vez extraído do seu contexto original, se transforma.

A criança trata com afeição os objetos construídos por ela (valor afetivo dado ao material). Por que? Antes de transformá-lo, a criança brinca com um determinado material, tendo com ele uma relação de afeto; depois de produzir o brinquedo a criança deseja levá-lo para casa.

A criança atribui várias formas a um mesmo objeto (capacidade de síntese). Ela é sintética ao fabricar brinquedos.

Por que o acabamento dos brinquedos tem uma forma meio “bruta”, dando ideia de acabamento “imperfeito”, rústico?

O acabamento dos brinquedos está relacionado a dois aspectos:
+ A criança atua de acordo com sua capacidade físico-motora, no estágio em que se encontra;
+ A criança não tem, como o adulto, a mesma preocupação de acabamento dos objetos: o brinquedo é produzido para ser imediatamente utilizado.

Os objetos/brinquedos construídos pelas crianças são ricos e variados, destituídos da falsa simplicidade. As escalas dos brinquedos de sucata construídos pelas crianças refletem seu próprio espaço e atendem às necessidades do ato de brincar.

As cores utilizadas nas sucatas pelas crianças são diretas e vibrantes, vivas e primárias. Não há meio tom.

O trabalho com sucata reflete um universo infantil

Pode-se observar que quando os materiais são colocados nas mãos das crianças, ao escolher um ou outro, cada criança tende a refletir seu temperamento, seu universo. Ex: os meninos interessam-se por martelos, serras e pregos; as meninas interessam-se por miudezas e por mínimos detalhes dos objetos.

A idéia acima não é norma. Reflete apenas uma visão superficial que é a separação dos mundos feminino e masculino.

É interessante perceber, por meio das construções dos brinquedos, as diferenças ente o universo dos meninos e das meninas. Os contrastes são acentuados na faixa etária de 09 a 12 anos de idade, período dos agrupamentos dos jogos meninos X meninas e idade da demonstração dos sentimentos e das fofocas nos grupos.
É neste contexto que a sucata pode servir de estímulo para uma atividade coletiva, amenizando o antagonismo.

O educador, a criança e o brinquedo

Se o ato de brincar é espontâneo, qual será, então, a função do educador?
+ Estimular nas crianças a prática dos jogos, incentivando-as e criando um ambiente propício para sua realização;
+ Acompanhar as crianças nos jogos, observando-as para melhor conhecê-las;
+ Ampliar o repertório de jogos e brinquedos das crianças, revendo aqueles que talvez já não participam do seu dia-a-dia;
Estimular a construção de brinquedos pelas próprias crianças.

O questionamento, a indagação, a compreensão da pesquisa, eis o caminho da criação. Não se ensina arte, a única coisa que é possível fazer é ajudar outros a formularem perguntas, suas próprias perguntas. Ao formularem as perguntas, estarão encaminhando-se para as possíveis respostas – condição para a criatividade.

A massificação não educa, porque ela implica respostas prontas (WEISS, 1989, p.46).

Os brinquedos construídos pelas crianças são feitos para brincar, para desgastar-se e até quebrar e não para enfeitar, pois o que importa é o prazer.

O jogo como estímulo é importante, mas condicioná-lo didaticamente é extrair-lhe a característica fundamental: a espontaneidade. (WEISS, 1989, p.47).

Perfil do educador em relação a arte
Não precisa ser obrigatoriamente um artista plástico. Antes de tudo precisa ser sensível, curioso e flexível.
O educador, nesse sentido, trabalha com formas, matérias, cores e texturas. A prática pessoal, enquanto pesquisa, tende a enriquecer o trabalho didático. Se o educador não demonstrar curiosidade, um mínimo de sensibilidade e abertura para receber projetos de pesquisa, como pode pretender transmitir uma postura de investigação, de curiosidade frente ao universo?

Distorções sobre o trabalho com sucata
Qualquer coisa é válida com sucata, não havendo nenhum questionamento;
A palavra criatividade é tão mal usada nessa área que tudo passa a ser criativo;
Ás vezes, o adulto impõe às crianças uma fórmula pré-determinada, e todos passa a usá-la, uniformizando os resultados.

A sucata envolve um trabalho com expressividade própria. Para isso é indispensável conhecer os diversos processos mentais que envolvem um processo de construção.

Processo mentais, segundo Robert Saunders:

Fluência: habilidade para encontrar várias soluções para um mesmo problema;
Associação: habilidade para relacionar formas, criar paralelos;
Flexibilidade no pensar criativo: habilidade de mudar o projeto inicial;
Habilidade visual: capacidade de interpretar signos.

Quando conhecemos os mecanismo mentais que estruturam qualquer projeto artístico, podemos conduzir um projeto de forma criativa.

O trabalho com sucata na pré-escola

Crianças em torno de 03 a 06 anos de idade: não há construção propriamente dita nesta faixa etária. Há uma fase de exploração dos materiais.

O que faz a criança nesta faixa etária?

Apalpa, aperta, destrói, cheira e experimenta;
Não tem a preocupação do adulto no sentido de preservar um objeto;
Poucos materiais são necessários para entreter;
Os atos de montar e desmontar estão intimamente ligados;
Não há preocupação com o acabamento e a limpeza no sentido do adulto;
As características dos materiais da própria sucata estimulam a imaginação das crianças, orientando-as no processo criativo (dando-lhes forma, imaginando que eles são algo). Daí a necessidade de explorar o maior número possível de materiais.
Muitas vezes misturam os materiais indiscrinadamente: argila, madeira, plástico, sementes, dentre outros. Relaciona-os sem saber o que pode ocorrer.
Conta muito o ato de experimentar.

Trabalho com sucata na pré-adolescência (09 a 12 anos de idade)

Fase de muita energia física;
Consegue desenvolver projetos mais sofisticados, manipulando materiais mais elaboradamente;
Nem tudo a satisfaz. Mais exigente quanto aos resultados;
Constrói objetos/brinquedos para serem usados, coletiva ou individualmente;
Mais criteriosa e com maior habilidade manual;
Constrói em diversas etapa, idealizando um acabamento final;
Curiosidade mais aguçada: descobre mecanismos e articulações do objeto.

Seleção de sucata

+ Ficar atento à sucata local – observar recursos oferecidos pelo bairro ou pela cidade;
+ Não se preocupar em reunir material idealizado;
+ Solicitar às crianças sugestões de locais onde conseguir material (fonte de material) = lixos da cidade ou sucata caseira.

Habilidades que o educador deve desenvolver

+ Ter contato com materiais – conhecer um mínimo de recursos materiais madeira, metais, argila, papéis, cola) para propor atividades;
+ Distinguir as diferentes faixa etárias das crianças – conhecer alguns aspectos básicos de cada momento do desenvolvimento das crianças para compreender suas reações, suas diferentes respostas às propostas apresentadas. Ex: por que uma criança de cinco anos faz colagem com a sucata e de repente destrói o seu trabalho;
+ Conhecer alguns processo mentais envolvidos no ato da criação artística – perceber que, até chegar a um resultado determinado, a criança precisa passar por diversas etapas: associar formas, relacionar materiais, mudar, às vezes, o significado de um objeto, sintetizar um projeto;
+ Desenvolver o senso de observação – observar perguntas inusitadas, gestos inesperados, expresso e reações diferenciadas. Observar para fazer reflexões e tirar conclusões, procurando aprimorar os conhecimentos sobre artes.

Aos olhos de uma criança pobre, um material de sucata de uma classe social média ou alta, deixa de ser sucata, pois sequer faz parte de seu repertório cotidiano. (WEISS, 1989, p.95).


Referências
RIBEIRO, Lourdes E.; PINTO, Gerusa R. O real do construtivismo: práticas pedagógicas e experiências inovadoras. Volume I. 6. ed. Fapi: Belo Horizonte, s/d.

WEISS, Luise. Brinquedos e engenhos: atividades lúdicas com sucata. Scipione: São Paulo, 1989.

CUNHA, Susana Rangel Vieira de. Cor, som e movimento: a expressão plástica, musical e dramática no cotidiano da criança. Mediação: Porto Alegre, 1999.

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